A falta de médicos no interior sempre foi um problema para moradores de diversos municípios do País. A diferença é que a situação tem se agravado nos últimos anos. Para piorar, o poder público se revela inepto para resolver o problema e mantém parte considerável do Sistema Único de Saúde (SUS) nas mãos das prefeituras, que não conseguem fornecer serviço de qualidade para a população. Estudo divulgado pelo Ministério da Saúde no final de 2008 comprova esta situação: pelo menos 17 municípios de Goiás apresentam graves deficiências quanto ao número de médicos residentes em seu território. Na maioria destas cidades, o Programa de Saúde da Família (PSF) sequer funciona e a presença de um médico é tida como visita ilustre e raríssima. Repita-se: visita, jamais residência. De acordo com o psiquiatra Salomão Rodrigues Filho, presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremego), que confirma a ausência de profissionais médicos em diversos municípios, essa situação só será revertida com investimento do município em saúde pública. “Existe uma luta pelo piso de R$ 7,5 mil por 20 horas de trabalho semanais”, afirma.
E esse nem é o único problema referente à falta de médicos. Outro fator que assusta é a nova realidade do mercado, cada vez mais voltado para modismos. É incrível, mas a cirurgia plástica, a medicina estética e a medicina de imagens têm chamado à atenção de jovens e promissores talentos que simplesmente poderiam estar atuando em segmentos de ponta e fundamentais.
ATRAÇÃO
A falta de profissionais é uma tendência que atinge especialidades nobres, caso da pediatria, psiquiatria e medicina intensiva – aquela que atua nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI). A pediatra Ivonete Canedo Mesquita, que trabalha em Goiânia, não acredita que exista desvalorização de mercado referente à pediatria. “É uma profissão linda e que dá imensa satisfação ao médico, mas é fato que tem atraído menos recém-formados.”
Ela informa que a pouca quantidade de procedimentos médicos da pediatria torna o ramo menos atraente se comparado a outras especialidades mais rentáveis. Para piorar, a atividade do pediatra é extremamente trabalhosa. A criança tem um organismo frágil e necessita de atenção constante.
Necessidade de concursos públicos para valorização
O presidente da Associação Médica de Goiás, Rui Gilberto Ferreira, informa que a falta de profissionais no interior é grave e compromete a qualidade dos serviços de saúde oferecidos para a população. “É um drama que não acaba. Continua faltando especialista. E a causa disso é a ‘prefeiturização’ da saúde. Muitas vezes os médicos são demitidos e perseguidos quando trocam os prefeitos. Ninguém consegue viver desse jeito, sem estabilidade, salário decente e concurso público”, afirma.
O representante dos médicos goianos afirma que o problema é político e deve ser resolvido à luz de nova legislação, aplicação de concursos públicos e respeito do ‘ato médico’. A luta parece inglória na medida em que as próprias cidades (e somente elas) têm tomado conta de um sistema de saúde cada vez mais desorganizado. É comum elogiar a legislação que regula o SUS (Sistema Único de Saúde), mas depois de 20 anos de aplicação da Constituição Federal são notórios os desvios e incorreções do sistema inspirado nas políticas públicas de saúde do Canadá. O governo federal, por exemplo, repassa gigantescos recursos para os municípios. Acontece que muitos dos chefes políticos municipais preferem investir em ambulâncias e usar o restante do dinheiro para outras atividades. A ambulância serve para levar doentes aos hospitais de outras cidades – uma das principais reclamações do secretário de Saúde de Goiânia, Paulo Rassi, é o constante movimento de pacientes de outros municípios que são enviados para que sejam atendidos na Capital. Em cidades como Anhanguera ou Guarani de Goiás é preciso ter sorte para não ficar doente de madrugada. Na primeira, existem três médicos que visitam a cidade, mas nenhum mora no local.
O prefeito de Guarani de Goiás diz que a cidade tem o atendimento de três médicos, mas reconhece a dificuldade de manter o profissional. “Ele não encontra nenhum atrativo em morar numa cidade pequena. Na questão da saúde, quem tem pago o pato é sempre o município. Não podemos arcar com salários altos”, fala.
Em Guarani de Goiás, informa o prefeito, o médico ganha R$ 5 mil fixos, mais remuneração pelos plantões que pode dobrar o valor. “Desejamos fazer concurso, mas não sei se teremos candidatos, devido ao tamanho dos salários. Acho que não compensa para os médicos”, diz.
Consulta mais complexa com crianças
João Serafim Filho, presidente da Sociedade Goiana de Pediatria (SGP), informa que o procedimento do pediatra inclui despir a criança e analisar cada parte de seu corpo em detalhe, enquanto outras especialidades se concentram em determinados órgãos. Não bastasse isso, a saúde de uma criança exige cuidados diferenciados. “A criança pode chegar aqui por conta de uma amigdalite e dias depois voltar por diarreia, mas as visitas contam apenas um retorno. E muitas vezes, ela volta, duas, três e mais vezes”, informa.
A situação piora quando o pediatra atende em postos de saúde pública. “Faltam condições de trabalho. Não temos equipamentos básicos”, fala. Ele cita situações extremas em que a criança aparece com dores de ouvido, mas o médico não tem sequer um otoscópio para realizar o exame da doença em profundidade. João Serafim reclama ainda dos planos de saúde, que muitas vezes remuneram o médico sem valorizar a complexidade da ação. “Estamos, sim, insatisfeitos. Não dá para negar”, diz o médico, que cobra maior atenção dos planos de saúde para a situação de achatamento da remuneração. Ele recorda que especialidades com maior potencial de mercado, caso da cirurgia plástica, só estão nesta condição devido à independência destes profissionais em relação aos planos de saúde e à cobertura da saúde pública.
Dedicação e cansaço
João Serafim Filho, presidente da Sociedade Goiana de Pediatria (SGP), afirma que atividades médicas como a pediatria exigem muito. “O tempo de consulta é até maior do que outras especialidades. O pediatra precisa ganhar a confiança da criança, aguardar o momento certo para que possa ser examinada.” Os retornos constantes, quase sempre com complicações, estafam os profissionais, que ficam em vigília por conta da saúde dos pacientes. Para piorar, muitas vezes falta estrutura de trabalho. Como uma situação puxa a outra, tem diminuído, por exemplo, a quantidade de leitos em UTIs e hospitais para internação de crianças. O motivo é o mesmo: não compensa mais investir neste segmento.
(Diário da Manhã-19.07)
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